A função responsável pela análise de crédito e estruturação das operações se consolida como peça central na cadeia de originação e monitoramento dos fundos de direitos creditórios
A expansão acelerada dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios no Brasil tornou mais visível uma função que, até pouco tempo atrás, permanecia relativamente discreta na estrutura desses veículos: o consultor especializado. Responsável por analisar o crédito dos direitos creditórios que compõem a carteira, estruturar as condições de cada operação e acompanhar o desempenho dos ativos ao longo do tempo, esse papel se consolidou como peça central na cadeia de originação e monitoramento dos FIDCs, ao lado das funções mais conhecidas de administração fiduciária e gestão de carteira, tema que a ID CTVM acompanha de perto em sua atuação institucional.
Uma função distinta da administração e da gestão
Embora o mercado costume associar os FIDCs principalmente às figuras do administrador fiduciário, responsável pela estrutura jurídica e operacional do fundo, e do gestor, responsável pelas decisões de alocação da carteira, o consultor especializado desempenha um papel técnico complementar e igualmente relevante: avaliar a qualidade de crédito dos direitos creditórios antes de sua incorporação ao fundo, negociar as condições de cessão junto aos originadores e acompanhar a evolução do risco da carteira ao longo da vida da operação. Em muitas estruturas, é o consultor especializado quem detém o conhecimento mais profundo sobre o setor econômico de origem dos recebíveis, seja ele agronegócio, saúde, educação ou crédito para o middle market.
Segundo Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, a maturidade do mercado de FIDCs passa necessariamente pelo fortalecimento dessa função.
“O consultor especializado é quem traz o conhecimento setorial mais aprofundado para dentro da estrutura do fundo. Ele entende as particularidades de crédito de cada segmento, o que complementa o trabalho do administrador fiduciário e do gestor, mais focados na estrutura jurídica e na alocação da carteira”, esclarece o executivo.
Na prática, isso significa que a escolha do consultor especializado tornou-se, ela própria, um elemento relevante de análise para investidores institucionais durante o processo de due diligence de um novo FIDC, ao lado de critérios já tradicionais como o histórico do gestor e a solidez do administrador fiduciário responsável pela estrutura.
Regra de conflito de interesse reforça a independência na originação
A Resolução CVM 175 estabelece que fundos não podem adquirir direitos creditórios emitidos ou cedidos pelo próprio administrador, gestor ou consultor especializado, ou por partes relacionadas a eles, uma vedação que busca preservar a isenção na análise de crédito de cada operação incorporada à carteira. Essa regra pode ser flexibilizada em estruturas específicas, desde que fique demonstrada a ausência de vínculo relevante entre o originador dos créditos e as demais partes envolvidas na estruturação e no monitoramento do fundo, o que exige documentação e controles adicionais por parte do administrador fiduciário.
A ID CTVM opera um ecossistema de portais integrados por APIs, entre eles o Portal do Consultor, desenvolvido especificamente para permitir que consultores especializados acompanhem em tempo real a carteira de recebíveis sob sua análise, desde a origem de cada direito creditório até seu vencimento ou eventual liquidação antecipada. A companhia administra mais de 550 fundos ativos, muitos deles estruturados em conjunto com consultores especializados de diferentes segmentos da economia real.
Essa integração tecnológica reduz o tempo entre a identificação de uma variação relevante na qualidade da carteira e a comunicação dessa informação ao administrador fiduciário e aos cotistas, encurtando o ciclo de resposta em relação a modelos que ainda dependem de relatórios consolidados manualmente em periodicidade mensal ou trimestral.
Especialização setorial deve se aprofundar
Para Balassiano, a tendência é que a especialização dos consultores por segmento econômico se aprofunde à medida que os FIDCs diversificam sua base de ativos.
“Não faz mais sentido pensar em um consultor especializado genérico para qualquer tipo de FIDC. Cada setor, seja agronegócio, saúde, tecnologia ou crédito para o middle market, tem particularidades de originação e de risco que exigem conhecimento técnico específico”, reforça o diretor da ID CTVM.
Essa maior transparência tende a se traduzir também em relatórios mais detalhados sobre os critérios de elegibilidade aplicados pelo consultor especializado na seleção de cada direito creditório, permitindo que cotistas institucionais compreendam com mais profundidade a política de crédito adotada em cada fundo, e não apenas o resultado agregado da carteira ao final de cada período.
Papel deve ganhar ainda mais peso na estrutura dos fundos
A avaliação de especialistas é que o consultor especializado deve ganhar ainda mais peso na estrutura de governança dos FIDCs nos próximos anos, à medida que investidores institucionais passam a exigir maior transparência sobre os critérios de originação e monitoramento de crédito adotados em cada operação. Para administradores fiduciários, a capacidade de integrar tecnologicamente o trabalho de diferentes consultores especializados à própria infraestrutura de controladoria deve se tornar um diferencial relevante na estruturação de novos fundos.

