O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, construiu ao longo de três anos de atuação no sertão cearense um legado que transcende os limites do consultório. Em um contexto marcado por desigualdades profundas no acesso à saúde, o trabalho desenvolvido por ele une cuidado geriátrico especializado e ação social de forma consistente e comprometida. Compreender o que significa exercer a medicina com propósito, como a geriatria pode ser instrumento de transformação e por que iniciativas como o Humaniza Sertão merecem atenção são questões centrais para quem acompanha o debate sobre saúde pública no Brasil.
O que significa exercer a medicina com propósito?
Exercer a medicina com propósito é reconhecer que o conhecimento técnico não é um fim em si mesmo, mas um instrumento a serviço da vida humana. Sob essa perspectiva, a formação acumulada ao longo de anos de estudo e prática tem uma dimensão coletiva que exige ser colocada a serviço da comunidade, indo além do que é confortável e lucrativo. Na concepção do doutor Yuri Silva Portela, essa escolha não é heroica no sentido romântico da palavra: é uma decisão ética que define o caráter de qualquer prática médica. O Humaniza Sertão nasceu exatamente dessa decisão, e segue existindo porque ela é renovada a cada mês, por cada voluntário que integra a equipe.
Medicina com propósito também significa aceitar que os resultados mais relevantes nem sempre são aqueles que aparecem em laudos e exames. A restauração da dignidade de um idoso que nunca havia recebido atenção especializada, o alívio de uma família que passa a compreender os direitos do familiar e a confiança renovada de uma comunidade no sistema de saúde são resultados que não se mensuram em números, mas carregam valor incalculável.
Como a geriatria se torna um instrumento de transformação social?
A geriatria, por sua natureza integrativa e pelo foco em uma população historicamente vulnerável, possui um potencial transformador que ultrapassa o tratamento de doenças. Quando praticada em contextos de desigualdade, torna-se um instrumento de justiça social, contribuindo para reduzir disparidades que afetam profundamente a qualidade de vida de idosos em situação de vulnerabilidade. Conforme aponta o doutor Yuri Silva Portela, cada consulta geriátrica realizada em uma comunidade do sertão é um ato de afirmação: a afirmação de que aquele idoso importa, que sua saúde tem valor e que ele merece o mesmo cuidado especializado disponível nos grandes centros urbanos.

A geriatria como ferramenta de transformação social também passa pela educação. À medida que o Humaniza Sertão capacita famílias para reconhecer sinais de alerta, cuidar de idosos com mais segurança e buscar ajuda no momento adequado, constrói-se competência comunitária que persiste muito além do dia de ação mensal. Doutor Yuri Silva Portela e sua equipe entendem que o conhecimento transferido é um dos legados mais duradouros do projeto.
O que três anos de Humaniza Sertão ensinaram sobre cuidar?
Três anos de atuação intensa e mensal ensinaram lições que nenhuma faculdade de medicina consegue transmitir por completo. A primeira é que a realidade das comunidades vulneráveis é muito mais complexa e rica do que qualquer diagnóstico prévio pode capturar. A segunda é que o cuidado sustentável depende de confiança, e a confiança se constrói com presença consistente ao longo do tempo. As comunidades atendidas regularmente pelo Humaniza Sertão respondem de forma completamente diferente daquelas em primeiro contato com o projeto, chegando mais abertas e mais engajadas no próprio cuidado.
Cabe destacar que a terceira e talvez mais importante lição é que o cuidado verdadeiro é sempre recíproco. Os voluntários do projeto não apenas oferecem cuidado às comunidades atendidas: recebem, em troca, gratidão, perspectiva e um aprendizado sobre a essência humana que transforma profundamente quem tem o privilégio de vivenciar essas experiências. Servir, sob esse aspecto, é uma via de mão dupla que enriquece a todos que dela participam.
Por que iniciativas como o Humaniza Sertão merecem reconhecimento?
O Brasil tem uma longa história de iniciativas sociais que nascem do comprometimento de indivíduos com a transformação de realidades injustas. O Humaniza Sertão integra essa história com consistência e propósito. Reconhecer projetos como esse é fundamental não apenas para que continuem existindo, mas para que inspirem outros profissionais a replicar esse modelo em suas regiões. O reconhecimento de iniciativas sociais em saúde também cumpre um papel político relevante: sinaliza à sociedade e aos gestores públicos que modelos alternativos de cuidado funcionam e merecem suporte.
O doutor Yuri Silva Portela e a equipe do Humaniza Sertão buscam visibilidade porque ela é um instrumento para ampliar o alcance do cuidado e chegar a mais pessoas que precisam. O legado de quem escolhe servir com excelência não se mede apenas pelos resultados acumulados ao longo dos anos, mas pelo que cada gesto de cuidado planta nas pessoas e nas comunidades que toca. Conhecer, apoiar e divulgar o Humaniza Sertão é também fazer parte dessa história.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

