Na mobilidade elétrica, vender ficou mais fácil do que consertar. A contradição acompanha o crescimento de redes como a Litoral Mobilidade, do empresário Fredy da Silva Gonçalves Bento, conhecido como Fredy Restrito, que comercializa centenas de veículos elétricos por mês no litoral paulista e precisa manter cada um deles rodando depois da venda.
O profissional que faz isso quase nunca chega pronto. Um estudo do Porto Digital, citado em análise sobre o setor, aponta que apenas 20% dos formandos em cursos da área estão plenamente aptos a atuar com veículos elétricos sem treinamento complementar. Para quem depende de assistência técnica, a saída é formar a própria equipe. Veja o passo a passo.
Recrutar pela base elétrica, não só pela mecânica
Uma scooter elétrica tem bem menos peças móveis que uma moto a combustão. Não há óleo, embreagem ou carburador. Em compensação, há bateria de lítio, controlador eletrônico, motor no cubo da roda e um sistema de gerenciamento que monitora cada célula da bateria.
Por isso, o melhor candidato nem sempre é o mecânico de motos mais experiente. Profissionais com formação em eletrônica, eletricidade ou manutenção de equipamentos costumam aprender mais rápido, porque já entendem tensão, corrente e diagnóstico de circuitos. A mecânica de freios, suspensão e pneus se ensina depois. A atenção à segurança também entra na seleção, porque baterias de lítio exigem manuseio correto, armazenamento adequado e cuidado com sinais de dano.
Treinar com o produto que a loja vende
Curso genérico ajuda, mas não substitui o contato com os modelos reais. Cada fabricante usa controladores, conectores e sistemas próprios, e o técnico precisa conhecer exatamente aquilo que vai chegar à bancada.
O treinamento mais eficiente combina aulas internas, acompanhamento de um técnico mais experiente e prática supervisionada nos atendimentos do dia. Formar equipes é um dos capítulos que Fredy Restrito destaca na própria trajetória, e a Litoral Mobilidade reúne hoje mais de 40 colaboradores.
Padronizar o diagnóstico
Imagine dois técnicos atendendo a mesma falha: a scooter liga, mas não acelera. Um troca o acelerador, o outro testa o controlador. Sem um roteiro comum, a loja gasta peças à toa e o cliente volta.
A solução é um protocolo de diagnóstico por sintoma, com a sequência de testes, as medições esperadas e o registro do que foi feito em cada ordem de serviço. Esse histórico vira matéria-prima para treinar os próximos técnicos e para identificar defeitos recorrentes em um lote ou modelo.
Ligar a oficina ao estoque de peças
Técnico treinado sem peça disponível não resolve problema, na visão de Fredy Restrito. O registro das ordens de serviço mostra quais componentes falham com mais frequência, e essa informação deve orientar a reposição e, quando a empresa importa, o pedido feito à fábrica.
Na mobilidade elétrica, isso pesa ainda mais. Baterias, controladores e carregadores variam entre modelos e lotes, e uma peça que vem da China pode levar semanas para chegar. Manter uma reserva calculada a partir do histórico da oficina evita que o veículo fique parado à espera de um componente simples, situação que desgasta o cliente mais do que o próprio defeito.
Emprego que fica na região
Assistência técnica de veículos elétricos é uma ocupação nova, que mal existia há poucos anos e que não pode ser feita a distância. Diferentemente de parte do varejo, que migra para o comércio eletrônico, o reparo exige bancada, ferramenta e alguém presente. Cada loja que abre com oficina própria cria vagas qualificadas na cidade em que está instalada.
O plano de expansão da Litoral Mobilidade por franquias prevê levar adiante o conhecimento acumulado em varejo, importação e assistência técnica. Na prática, isso significa repetir em outras cidades o caminho de formar técnicos onde eles ainda não existem, uma face menos visível do trabalho de Fredy da Silva Gonçalves Bento na construção de empresas.

