Com o avanço de agentes de IA aplicados à rotina das áreas de tecnologia, a leitura de Rolando Bonaccorsi, Diretor de Operações da Vert Analytics, dimensiona um pré-requisito que costuma passar em branco nos projetos de automação. Antes de delegar qualquer tarefa a um agente de IA, a empresa precisa ter o processo descrito, com entradas, saídas e critérios de decisão registrados em algum lugar verificável.
A promessa comercial da tecnologia reforça a confusão. Ferramentas chegam anunciando capacidade de interpretar contextos ambíguos e resolver demandas que nunca foram mapeadas, e o resultado prático é a automação de uma desordem que já existia. Quando o fluxo vive apenas na memória de quem o executa há anos, não há o que automatizar, porque não existe processo, e sim um conjunto de improvisos bem-sucedidos.
O que diferencia processo escrito de processo conhecido?
Processo conhecido é aquele que a equipe sabe executar. Processo escrito é aquele que pode ser auditado, medido e repetido por quem acabou de chegar. A distância entre os dois aparece no detalhe aparentemente menor, como a regra que define quando um pedido sai da fila normal e vira prioridade, ou o limite a partir do qual uma exceção precisa de aprovação humana.
Na avaliação de Rolando Bonaccorsi, a ausência de registro se manifesta primeiro nos pontos de decisão, não nas tarefas operacionais. Copiar dados de um sistema para outro é simples de descrever em poucas linhas. Decidir se um caso atípico segue o fluxo padrão ou vai para análise manual exige um critério que, em muitas operações, nunca foi colocado no papel por ninguém.
Como o agente lê o que a operação documentou?
Agentes de IA operam sobre três camadas, formadas por instruções, ferramentas e limites. A instrução define o objetivo, as ferramentas delimitam o que pode ser acionado e os limites estabelecem até onde vai a autonomia da execução. Nenhuma dessas camadas se sustenta sem descrição prévia do fluxo, porque a modelagem depende de um comportamento esperado que alguém precisa ter definido antes.
O desenho de permissões segue a mesma lógica de dependência. Um agente com acesso amplo a sistemas de produção e sem critério de parada representa risco operacional maior do que o ganho de eficiência entregue. Conforme contextualiza Rolando Bonaccorsi, a definição de escopo precisa vir do processo documentado, porque é ali que estão identificados os pontos em que uma ação automática produz efeito irreversível.
Quando a automação amplia o problema em vez de resolvê-lo
Operações com processos frágeis não ganham estabilidade ao receber automação, e sim velocidade no erro. Um fluxo que falhava em dez por cento dos casos manuais segue falhando na mesma proporção, agora em escala e sem a correção informal que o analista fazia sem registrar. Segundo o exame feito por Rolando Bonaccorsi, a percepção de piora aparece semanas depois, quando o retrabalho chega aos indicadores.
Há, todavia, um efeito positivo pouco explorado nesses projetos. O esforço de escrever o processo para habilitar o agente revela redundâncias, aprovações desnecessárias e etapas que existiam apenas por hábito acumulado. Parte relevante do ganho de eficiência atribuído à inteligência artificial vem, na prática, da revisão de fluxo feita antes de a ferramenta entrar em operação.
A documentação como ativo operacional, não como burocracia
Documentar processo carrega má reputação em áreas técnicas, associada a manuais extensos que ninguém abre depois de prontos. O formato útil é outro, mais próximo de um registro vivo, curto e versionado, que descreve o fluxo real e muda quando o fluxo muda. Uma página objetiva com gatilhos, exceções e responsáveis entrega mais valor do que cinquenta páginas desatualizadas.
A documentação atualizada funciona como ativo operacional, conforme caracteriza Rolando Bonaccorsi, porque dela dependem a troca de turno, a entrada de novos integrantes, a auditoria e agora a configuração dos agentes. Operações que mantêm a base atualizada conseguem adotar automação de forma incremental, testando um fluxo de cada vez, com reversão simples quando o resultado esperado não se confirma.
Vale revisar, antes do próximo projeto de automação, quais processos têm descrição atualizada e quais vivem apenas na prática diária, porque o levantamento indica onde um agente de IA entregaria resultado imediato.

